"Boa tarde, senhoras e senhores! Eu estou desempregado. Poderia estar matando ou roubando , mas, em vez disso, estou aqui tentando ganhar um dinheirinho extra para sustentar a minha família."Se você costuma andar de ônibus, já deve ter ouvido essa frase dezenas de vezes. Com uma taxa de desemprego de 15,9%, trabalhadores do Distrito Federal têm migrado para o comércio ambulante. Mas como essa é uma área bem saturada, resolveram inovar e vender mercadorias dentro dos ônibus.
Maria Aparecida Castro, 32 anos, está na atividade há seis meses. Com três filhos para criar e o marido doente, Maria Aparecida garante que essa foi a única opção. "Preciso ganhar a vida de algum jeito. Muitos passageiros se incomodam, mas, se tivessem filhos para criar e estivessem desempregados, fariam a mesma coisa", desabafa a ambulante.
Além da resistência de alguns passageiros, os ambulantes enfrentam outra dificuldade. Os comerciantes entram pela porta de trás. Sem pagar passagem. E os motoristas são instruídos pelas empresas que trabalham a não permitir essa prática. "Por dia, eu deixo entrar pelo menos dois vendedores, mas, se a empresa descobrir, é motivo de demissão", garante J.R., motorista da Viação Planalto. "A empresa não permite porque é proibido dar carona, mas, eles estão desempregados e, da forma como o desemprego aumenta, quem garante que amanhã eu não vou estar no lugar deles?", completou o motorista.
A opinião dos passageiros se divide. Carla Régia, moradora da Santa Maria, acredita que os ambulantes fazem isso por falta de opção, mas, admite: "às vezes eu fico irritada com eles. Se a gente não pensar bem, acaba perdendo a paciência".Carlos Alberto, da Samambaia, já vê a atividade com outros olhos. "Estão trabalhando honestamente. Pior é se estivessem assaltando os ônibus", afirmou.
Em informativo fixado nos ônibus, as empresas fazem questão de lembrar que a prática de carona é proibida por lei, mas e os comerciantes que pagam as passagens regularmente? Por enquanto, isso é um mistério. Em contato com a Secretaria de transportes do DF (Setrans), o Departamento de transporte Urbano do DF (DFTrans) e até com a Câmara Legislativa,ninguém soube informar se a prática é legal.

